9 de março de 2012
AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM
"Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu quem fiz?" "Uma anatomia de todas as partes da vida humana." Assim um poeta e um teólogo expressaram o que vejo no livro dos salmos. Todas as nossas emoções, estórias, medos e paixões encontram ressonância nesta caixa. Penso que não haja referencia de algum acontecimento, tragédia ou conquista humana que não tenha um paralelo em alguns dos salmos.
Salmos são canções, poesia. E como toda canção ele ao mesmo tempo enleva, alimenta e ensina. Enleva porque durante uma determinada canção nossa alma se deleita, se entrega, adormece e volta a acordar. Alimenta porque tem a propriedade de tocar em diversas partes de nosso ser e dar prazer. Há canções que "usamos" quando queremos protestar ou extravasar; há outras que desejamos quando a nossa alma precisa de descanso e proteção, e ainda outras que consumimos quando queremos mostrar algo: felicidade, gratidão, acolhimento, saudade, etc E ensina porque tem uma conexão direta com a nossa estrutura cognitiva. Memória, compreensão, crítica, raciocínio, e outros, tudo está em jogo enquanto cantamos ou ouvimos uma canção. Um amigo me disse: Marcelo, a musica é extremamente importante na igreja porque o povo aprende o que canta.
Temos trazido neste mês de março algumas percepções e motivações do salmo 23 de forma que as confrontemos com aspectos indispensáveis à vida. Questões absolutamente essenciais ao bem viver podem ser respondidas e refletidas neste salmo. Eis algumas delas: felicidade, direção, satisfação, segurança em meio às dúvidas e aos perigos, descanso, vitória nas lutas, superação, eternidade e outros.
Minha oração ao "Pai-stor" é para que você receba estes recursos da Graça como quem ouve uma canção que te faça bem à alma. Para alguns pode soar como uma canção de ninar, igual a que a vovó ou a mãe cantavam e agente dormia tranquilo e seguro. Para outros uma canção nova, que se identifica com os desejos e emoções mais profundos e escondidos da alma, tornando-a bela e inesquecível. Ou mesmo para aqueles aos quais será apenas mais uma canção, ainda o faça apenas parar para escutá-la. O que já é muito bom!
Com carinho e apreço, Pr. Marcelo (em 08/03/2012
24 de novembro de 2011
O dia de um capelão
23 de novembro de 2011
OS SALMOS E A VIDA: A Poesia de Deus para o nosso dia-a-dia
Esta expressão de um grande poeta de nosso tempo expressa uma verdade fundamental sobre os Salmos: por vezes, ao lermos temos a nítida impressão de que as palavras daquele Salmo expressam de tal forma o nosso momento de vida que parece que fomos nós quem os escrevemos.
É por isso que o teólogo reformado, João Calvino disse que os salmos são a “anatomia de todas as partes da vida humana”. Pois é, os Salmos são assim.
Aos lermos os Salmos, ao cantarmos, ao orarmos ou ao meditarmos neles nós conhecemos melhor quem nós somos, como é a vida e quem Deus é.
Nos compreendemos melhor nos Salmos. Nos vemos totalmente desnudados em nossa alma nestas canções e nestas orações. Nosso ser se revela por dentro e por fora. Cada parte de nossa vida sejam as emoções, seja o corpo ou ainda os nossos desejos, sonhos ou pecados, tudo... Tudo está ali, claramente, impunemente, descaradamente! O ser - humano que ali é apresentado tem cabeça, olhos, boca, barba, ouvido, braços, pernas, ossos, enfim. Nada é escondido. É uma pessoa que anda, que pára, que se assenta pra descansar, que passa por lugares difíceis, que se alimenta, que bebe, que tem fome profunda na alma. Os fortes, os corajosos, os felizes os bem-sucedidos, os ricos, todos estão ali. Mas ali também estão os ímpios, os pobres, os medrosos, os chorões, os perdidos, os fracos. Quem ajuda e quem é ajudado, quem ampara de dia e é amparado de noite, quem é humilde e quem é soberbo, todos... todos estão ali.
A vida se revela sem mistérios nos salmos. Vemos os degraus que havemos de subir (ou descer) em nossa jornada. Vemos que na vida há canto, há salto de alegria, há montes por onde o orvalho da graça de Deus desce e inunda o mundo. Vemos também que na vida há noites mal dormidas, há lágrimas. há choro, muito choro, de até fazerem doer os ossos. Há inimigos, há reis bons e maus, há justos e há ímpios. A vida como ela é, é mostrada nos Salmos sem maquiagem, e até mesmo sem roupagem religiosa, às vezes. Reconhecemos as batalhas e nos preparamos para enfrentá-las.
Nos Salmos chegamos mais perto de Deus. Aquele que não nos oculta o rosto, nem mesmo quando a gente pede pra ele nos “errar” (39). Conhecemos um Deus poderoso e pessoal, Aquele que é louvado, exaltado, mas não nos rejeita quando falamos atrocidades e tentamos ferir a sua honra. Esse é o Deus dos Salmos. Um Deus presente em cada parte da vida e do ser - humano.
Que ele nos dê Graça e a sua presença! Pr. Marcelo,
em 04/11/2010
HAJA ESTÔMAGO!
“A “oração” que o deputado distrital e corregedor da Câmara Legislativa do Distrito Federal fez pelo corrupto Durval Barbosa é de uma canalhice sem tamanho na história do evangelho brasileiro.”
“Pra quem não conhece, o deputado Júnior Brunelli [quem fez a oração acima e que em outro vídeo foi flagrado recebendo dinheiro de propina] é pastor e filho do "apóstolo" Doriel de Oliveira, proprietário da Igreja Casa da Bênção.”
A tragédia foi mais que anunciada. Já não nos assusta nem mais isso. É depressivo ver o nosso estado quando olhamos coisas assim. Talvez seja o caos total. O fim. Prova disso é que não se pode imaginar algum extremo que realmente nos impressione, quando o assunto é roubalheira, corrupção ou outros crimes envolvendo pastores ou líderes evangélicos.
Pense comigo: você se assustaria se uma igreja fosse achada como depósito de mercadorias ilegais apreendidas pela polícia federal? Eu não. No máximo, lamentaria. Você se sentiria constrangido se alguém lhe dissesse que viu, em rede nacional, um grande líder evangélico ser preso, e algemado, compondo uma quadrilha de traficantes e assassinos? Eu não. Infelizmente, não.
Não há mais extremos do absurdo em que se pensar para se usar de comparação. A realidade é mais cruel. Mais triste do que qualquer suposição ou obra de ficção. A propósito, não temos que nos impressionar com a ficção (filmes, novelas ou outras obras). Já foi o tempo em que podíamos pensar que elas exerciam má influência sobre os ditos cristãos evangélicos. Hoje, a ficção é que é má influenciada por estes. Os autores apenas retratam a realidade, que é má, de forma mais popular e inteligível à grande massa.
Quero, entretanto, como pastor protestante há quase duas décadas levantar minha voz diante do rebanho que o Senhor conferiu aos meus cuidados pastorais e dizer: Não aceito isso! Repudio com toda força e indignação que há em mim qualquer forma de identificação com esta gente. Não sou e não somos evangélicos como estes outros. Não estamos buscando em Deus a bênção para fazer o mal. Não somos instrumentos para estender a corrupção e a desgraça moral pelo nosso bairro, nossa cidade ou nosso País. Não queremos em nossas vidas estas bênçãos cujos “instrumentos” são profanos e envergonham descaradamente nossa nação.
Não deixaremos de nos relacionar com gente corrupta e pecadora. Não se trata de isolarmo-nos do mundo. Pelo contrário, queremos pessoas com todos os defeitos e debilidades que tenham. Sejam físicas, morais ou até mesmo de caráter. Nós mesmos temos nossos defeitos a serem tratados. A diferença que que não abrimos mão de ser Luz e Sal. Queremos ser pessoas na instrumentação de Deus para transformar o mundo e melhorar as pessoas.
Fico com a oração de Jesus em favor dos seus discípulos:
“Pai... Não peço que os tires do mundo, mas que os preservem do Mal”
Rev. Marcelo,
em 03 de dezembro de 2009
24 de outubro de 2011
VAI PASSAR...
Noutra canção (a banda) o mesmo literário disse que aqueles que tinham uma vida triste e sofrida deixavam tudo pra traz e esqueciam sua dor só ver a banda passar.
Note que a vida boa e a ausência da dor estão, não só nas letras do poeta, mas na própria vida, relacionados a algo que passa. Ou neste caso, que irá passar. É bom esperar por algo bom. A raposa do Pequeno Príncipe dizia pro menino: se você vem às quatro horas começo ser feliz às duas. Criança esperando por um evento de prazer já é o próprio deslumbre de prazer.
Os profetas bíblicos, tais quais os poetas, também falam de dias que passarão por nossas vidas onde quem é triste ficará alegre e quem sofre vai despedir-se da dor. (veja Jr. 31.31-33, ou Ml 4.1-6). Um desses se expressa assim quando relata o extase e alegria pela chegada do Cristo: saireis e saltareis como bezerros soltos de uma estrebaria...
Todavia, penso que não basta conhecer o que diz os poetas ou os profetas. Acho que a gente tem que ser como as crianças. Acreditar no presente do Pai que virá. E porque virá amanhã já sou feliz hoje.
Se é verdade que a maioria de nós não gosta de samba e nunca foi pra uma janela ver a banda passar, é também verdade que buscamos incessantemente a alegria e o bem na vida. Esta é uma das marcas da nossa caminhada cristã. Mas há um diferencial enorme entre as poesias e as profecias citadas.
A alegria do samba e da banda se são curadoras por um lado, também são efêmeras por outro. Tão passageiras quanto o carro alegórico que passa. Depois que a banda do Chico passou, diz ele: “Mas para meu desencanto / O que era doce acabou / Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou./ E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor...”
De outro lado, as promessas dos profetas falam de uma alegria duradoura porque não se trata de uma alegria momentânea ou um mero sentir-se bem, ou aliviado. A alegria e a cura de que falam os profetas são uma Pessoa. A pessoa de Cristo. O Sol da Justiça. O que converte os corações dos pais aos corações dos filhos. O Cristo que virá, segundo o profeta, virá trazendo salvação em suas asas. A alegria do Cristo se estabelecerá para sempre. Esta é a Nova Aliança.
Duas perguntas:
O carnaval está chegando, como você se sentirá depois que ele acabar?
O Cristo prometido já veio, e a sua alegria já chegou?
Com carinho, Marcelo Coelho
22 de janeiro de 2010
A LITURGIA DA VIDA
O sentido mais comum que damos ao termo “liturgia” é aquilo que se entende ou relaciona-se à ordem do culto. Quero, entretanto, usá-lo de outra forma. A palavra liturgia não se originou na igreja. “No mundo grego, ela se referia ao serviço público, aquilo que um cidadão fazia pela comunidade. Quando a igreja usava o termo em relação à adoração, ela mantinha esta conotação de ‘serviço público’- Trabalhando em favor da comunidade ou seguindo ordens de Deus” (Peterson: 2004).
A liturgia da vida é aquela que ultrapassa as paredes do templo. Ela é a contínua atitude de serviço a Deus e ao próximo. É quando não há diferença entre o que pensamos ou falamos de Deus dentro da igreja ou fora dela. Quando vivenciamos nossa vida cristã nos lugares menos prováveis ou esperados estamos executando esta liturgia.

Somos convidados a sermos cristãos litúrgicos. Nosso serviço de culto a Deus não termina no domingo à noite. O que deveríamos fazer é imprimir cada parte de nossa relação com Deus nas páginas de nosso dia-a-dia.
Mas como isso se dá na prática? Quando levamos Deus e sua Palavra ao mundo nós fazemos com que o mundo e toda a criação de Deus retornem a Ele e sua Palavra. Fazemos isso quando socorremos alguém que está caindo ou não pode andar; quando oferecemos uma mão amiga para ajudar em alguma situação; quando nos importamos ao ponto agir em favor de um conhecido (ou mais que isso); quando nos calamos ao invés de dar lugar a ira humana; enfim, quando praticamos o que nos cultos cantamos ou prometemos.
Levar Deus ao mundo e o mundo a Deus é, não só a tarefa, mas a conseqüência de quem aceita que sua vida também seja uma liturgia. Ele ou ela irão tornar o seu serviço a Deus, um serviço público e ao público.
Com carinho, Pr Marcelo
8 de abril de 2009
A RESSURREIÇÃO NA VIDA DE TODOS NÓS
No credo apostólico dizemos “Creio na ressurreição do corpo”. Mas por que dizemos isso? Dizemos porque desejamos. Crenças são traduções dos nossos desejos. Entretanto, a doutrina da ressurreição é desejo sim, mas que se realiza no dia-a-dia dos cristãos. É um sonho que se tornou realidade. “E vimos sua glória como a do unigênito do Pai”. Então como é que se vive o sonho realizado da ressurreição?
Vivemos a ressurreição de Cristo em nós quando experimentamos a esperança. E sem esperança não se vive. “Agora pois permanecem a fé, a esperança e o amor”. Um autor que escreveu sobre a morte de criancinhas indefesas e doentes disse que “a esperança é o que surge quando a fé acaba”. Quando não há mais fé e quando o amor está longe do abraço, somente a esperança nos sustenta. Não é a toa que se fala tanto de esperança quando se tem que enfrentar os espinhos e as agruras da morte. Isso porque muita coisa termina com a morte; a esperança não. Ela permanece e nos leva para o lugar seguro em que olhamos a vida passar e descobrimos que vale a pena continuar vivendo. O poeta disse que “a saudade é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu”. A esperança nos segura nesta hora e nos faz firmes e teimosos em aguardar a vitória final.
Hoje celebramos a ressurreição daquele que se fez penhor (garantia) da nossa ressurreição. Celebramos a saudade e a esperança. Sim, estamos vivos! E estamos porque já experimentamos várias vezes o milagre de Cristo em nós. A morte de Cristo é também símbolo de alguém que experimentou o maior sofrimento humano, para que todos os humanos pudessem, juntos com Cristo, pela fé, passar por seus sofrimentos. A ressurreição de Cristo é também símbolo da vitória sobre as crises, perdas e decepções da vida. Por isso, embora ela parta da dura realidade da morte [sem morte não há ressurreição e, portanto, não há vitória] ela é o maior motivo da celebração e da alegria daqueles que professam a Cristo em suas vidas.
Aleluia! Cristo ressuscitou!
Aleluia! Vencemos com Cristo!
Vamos celebrar!
Boa páscoa a todos, Pr. Marcelo, em 08/04/2002
11 de outubro de 2008
SANTUÁRIO... da alma e do futebol

Parecia uma manhã como as demais. Tirando o fato de que um desânimo enorme se apoderou de mim. Eu tinha o costume de, por duas ou três manhãs da semana, ir até o estádio do Pacaembu e lá fazer meus exercícios físicos e finalizá-los com uma corridinha na pista ao redor do campo de futebol. [Certa vez não resisti e pisei o gramado. Foi fantástico!] Mas naquele dia não fui lá pra isso. Não tinha forças pra me exercitar, nem tampouco correr. Acho que o que eu queria mesmo era correr pra longe dos problemas e da aflição da minha alma.
De repente me ocorreu ir para um lugar onde eu pudesse ficar só comigo mesmo para assim, quem sabe, encontrar o Senhor na minha oração. A Bíblia fala que estes momentos deveriam ser vivenciados no ´teu quarto´. E eu estava mesmo era à procura de um lugar desses.
Estacionei o carro e comecei a caminhar pela pista e a falar com Deus. Meus olhos contemplavam de um lado e do outro, milhares de assentos vazios na arquibancada. E minha memória oscilava entre lembrar que Deus cuida de mim mesmo sendo eu mais um entre milhares e que aquele lugar tão silencioso é também o lugar de pessoas em êxtase tomadas de todas as emoções possíveis. Era como se eu ouvisse duas vozes: uma a que dizia: você continua sendo meu filho amado e a outra, bem longe, insistia em toar: “timão eh ô...”
Percebi que eu estava no lugar certo para o encontro desejado. Quase no final da volta na pista, olhei para um lado e para outro e, não vendo ninguém que me reprovasse, e percebendo que não causaria mal nenhum ao patrimônio público, resolvi subir a arquibancada do lado esquerdo do tobogã. Lá estava eu: “às margens do campo de futebol subi as arquibancadas e lá me assentei e chorei”. Na hora não vi nenhuma semelhança com os rios da babilônia, em cujas margens os israelitas se assentavam e choravam lembrando a terra santa. Todavia, hoje vejo que experimentei todos aqueles sentimentos relatados no salmo: saudade, tristeza, injustiça, e outros.
Não demorou muito a vir um funcionário e gritar lá de baixo algo que eu fiz questão de não ouvir, pois estava ocupado demais para olhar pra ele. Percebi então que ele começou a subir a arquibancada, bem como o que ele viria fazer ali. Mas aproveitei intensamente aqueles minutos que ele demorou pra vir onde eu estava.
Eu me sentia em terra estranha e proibida. Mas ao mesmo tempo aquele lugar me era maravilhosamente familiar. Meus questionamentos acerca da vida, pareciam estarem sendo postos no lugar certo. Sentia-me profundamente acolhido em minha oração. Foi um momento mágico.
Isto aconteceu há mais ou menos 6 anos atrás. Mas na semana passada, depois de visitar o museu do futebol, sonhei com aquele momento e com o salmo 137, e foi muito bom lembrar aquilo tudo. Por isso resolvi compartilhar com você estes sentimentos e emoções.
Qual é o seu lugar de encontro com Deus e com você mesmo?
O que é sagrado pra você?
Como você se sente depois que você sai “quarto”? Mt. 6.6
Com carinho, Pr. Marcelo

