24 de outubro de 2011
VAI PASSAR...
Noutra canção (a banda) o mesmo literário disse que aqueles que tinham uma vida triste e sofrida deixavam tudo pra traz e esqueciam sua dor só ver a banda passar.
Note que a vida boa e a ausência da dor estão, não só nas letras do poeta, mas na própria vida, relacionados a algo que passa. Ou neste caso, que irá passar. É bom esperar por algo bom. A raposa do Pequeno Príncipe dizia pro menino: se você vem às quatro horas começo ser feliz às duas. Criança esperando por um evento de prazer já é o próprio deslumbre de prazer.
Os profetas bíblicos, tais quais os poetas, também falam de dias que passarão por nossas vidas onde quem é triste ficará alegre e quem sofre vai despedir-se da dor. (veja Jr. 31.31-33, ou Ml 4.1-6). Um desses se expressa assim quando relata o extase e alegria pela chegada do Cristo: saireis e saltareis como bezerros soltos de uma estrebaria...
Todavia, penso que não basta conhecer o que diz os poetas ou os profetas. Acho que a gente tem que ser como as crianças. Acreditar no presente do Pai que virá. E porque virá amanhã já sou feliz hoje.
Se é verdade que a maioria de nós não gosta de samba e nunca foi pra uma janela ver a banda passar, é também verdade que buscamos incessantemente a alegria e o bem na vida. Esta é uma das marcas da nossa caminhada cristã. Mas há um diferencial enorme entre as poesias e as profecias citadas.
A alegria do samba e da banda se são curadoras por um lado, também são efêmeras por outro. Tão passageiras quanto o carro alegórico que passa. Depois que a banda do Chico passou, diz ele: “Mas para meu desencanto / O que era doce acabou / Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou./ E cada qual no seu canto / Em cada canto uma dor...”
De outro lado, as promessas dos profetas falam de uma alegria duradoura porque não se trata de uma alegria momentânea ou um mero sentir-se bem, ou aliviado. A alegria e a cura de que falam os profetas são uma Pessoa. A pessoa de Cristo. O Sol da Justiça. O que converte os corações dos pais aos corações dos filhos. O Cristo que virá, segundo o profeta, virá trazendo salvação em suas asas. A alegria do Cristo se estabelecerá para sempre. Esta é a Nova Aliança.
Duas perguntas:
O carnaval está chegando, como você se sentirá depois que ele acabar?
O Cristo prometido já veio, e a sua alegria já chegou?
Com carinho, Marcelo Coelho
22 de janeiro de 2010
A LITURGIA DA VIDA
O sentido mais comum que damos ao termo “liturgia” é aquilo que se entende ou relaciona-se à ordem do culto. Quero, entretanto, usá-lo de outra forma. A palavra liturgia não se originou na igreja. “No mundo grego, ela se referia ao serviço público, aquilo que um cidadão fazia pela comunidade. Quando a igreja usava o termo em relação à adoração, ela mantinha esta conotação de ‘serviço público’- Trabalhando em favor da comunidade ou seguindo ordens de Deus” (Peterson: 2004).
A liturgia da vida é aquela que ultrapassa as paredes do templo. Ela é a contínua atitude de serviço a Deus e ao próximo. É quando não há diferença entre o que pensamos ou falamos de Deus dentro da igreja ou fora dela. Quando vivenciamos nossa vida cristã nos lugares menos prováveis ou esperados estamos executando esta liturgia.

Somos convidados a sermos cristãos litúrgicos. Nosso serviço de culto a Deus não termina no domingo à noite. O que deveríamos fazer é imprimir cada parte de nossa relação com Deus nas páginas de nosso dia-a-dia.
Mas como isso se dá na prática? Quando levamos Deus e sua Palavra ao mundo nós fazemos com que o mundo e toda a criação de Deus retornem a Ele e sua Palavra. Fazemos isso quando socorremos alguém que está caindo ou não pode andar; quando oferecemos uma mão amiga para ajudar em alguma situação; quando nos importamos ao ponto agir em favor de um conhecido (ou mais que isso); quando nos calamos ao invés de dar lugar a ira humana; enfim, quando praticamos o que nos cultos cantamos ou prometemos.
Levar Deus ao mundo e o mundo a Deus é, não só a tarefa, mas a conseqüência de quem aceita que sua vida também seja uma liturgia. Ele ou ela irão tornar o seu serviço a Deus, um serviço público e ao público.
Com carinho, Pr Marcelo
8 de abril de 2009
A RESSURREIÇÃO NA VIDA DE TODOS NÓS
No credo apostólico dizemos “Creio na ressurreição do corpo”. Mas por que dizemos isso? Dizemos porque desejamos. Crenças são traduções dos nossos desejos. Entretanto, a doutrina da ressurreição é desejo sim, mas que se realiza no dia-a-dia dos cristãos. É um sonho que se tornou realidade. “E vimos sua glória como a do unigênito do Pai”. Então como é que se vive o sonho realizado da ressurreição?
Vivemos a ressurreição de Cristo em nós quando experimentamos a esperança. E sem esperança não se vive. “Agora pois permanecem a fé, a esperança e o amor”. Um autor que escreveu sobre a morte de criancinhas indefesas e doentes disse que “a esperança é o que surge quando a fé acaba”. Quando não há mais fé e quando o amor está longe do abraço, somente a esperança nos sustenta. Não é a toa que se fala tanto de esperança quando se tem que enfrentar os espinhos e as agruras da morte. Isso porque muita coisa termina com a morte; a esperança não. Ela permanece e nos leva para o lugar seguro em que olhamos a vida passar e descobrimos que vale a pena continuar vivendo. O poeta disse que “a saudade é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu”. A esperança nos segura nesta hora e nos faz firmes e teimosos em aguardar a vitória final.
Hoje celebramos a ressurreição daquele que se fez penhor (garantia) da nossa ressurreição. Celebramos a saudade e a esperança. Sim, estamos vivos! E estamos porque já experimentamos várias vezes o milagre de Cristo em nós. A morte de Cristo é também símbolo de alguém que experimentou o maior sofrimento humano, para que todos os humanos pudessem, juntos com Cristo, pela fé, passar por seus sofrimentos. A ressurreição de Cristo é também símbolo da vitória sobre as crises, perdas e decepções da vida. Por isso, embora ela parta da dura realidade da morte [sem morte não há ressurreição e, portanto, não há vitória] ela é o maior motivo da celebração e da alegria daqueles que professam a Cristo em suas vidas.
Aleluia! Cristo ressuscitou!
Aleluia! Vencemos com Cristo!
Vamos celebrar!
Boa páscoa a todos, Pr. Marcelo, em 08/04/2002
11 de outubro de 2008
SANTUÁRIO... da alma e do futebol

Parecia uma manhã como as demais. Tirando o fato de que um desânimo enorme se apoderou de mim. Eu tinha o costume de, por duas ou três manhãs da semana, ir até o estádio do Pacaembu e lá fazer meus exercícios físicos e finalizá-los com uma corridinha na pista ao redor do campo de futebol. [Certa vez não resisti e pisei o gramado. Foi fantástico!] Mas naquele dia não fui lá pra isso. Não tinha forças pra me exercitar, nem tampouco correr. Acho que o que eu queria mesmo era correr pra longe dos problemas e da aflição da minha alma.
De repente me ocorreu ir para um lugar onde eu pudesse ficar só comigo mesmo para assim, quem sabe, encontrar o Senhor na minha oração. A Bíblia fala que estes momentos deveriam ser vivenciados no ´teu quarto´. E eu estava mesmo era à procura de um lugar desses.
Estacionei o carro e comecei a caminhar pela pista e a falar com Deus. Meus olhos contemplavam de um lado e do outro, milhares de assentos vazios na arquibancada. E minha memória oscilava entre lembrar que Deus cuida de mim mesmo sendo eu mais um entre milhares e que aquele lugar tão silencioso é também o lugar de pessoas em êxtase tomadas de todas as emoções possíveis. Era como se eu ouvisse duas vozes: uma a que dizia: você continua sendo meu filho amado e a outra, bem longe, insistia em toar: “timão eh ô...”
Percebi que eu estava no lugar certo para o encontro desejado. Quase no final da volta na pista, olhei para um lado e para outro e, não vendo ninguém que me reprovasse, e percebendo que não causaria mal nenhum ao patrimônio público, resolvi subir a arquibancada do lado esquerdo do tobogã. Lá estava eu: “às margens do campo de futebol subi as arquibancadas e lá me assentei e chorei”. Na hora não vi nenhuma semelhança com os rios da babilônia, em cujas margens os israelitas se assentavam e choravam lembrando a terra santa. Todavia, hoje vejo que experimentei todos aqueles sentimentos relatados no salmo: saudade, tristeza, injustiça, e outros.
Não demorou muito a vir um funcionário e gritar lá de baixo algo que eu fiz questão de não ouvir, pois estava ocupado demais para olhar pra ele. Percebi então que ele começou a subir a arquibancada, bem como o que ele viria fazer ali. Mas aproveitei intensamente aqueles minutos que ele demorou pra vir onde eu estava.
Eu me sentia em terra estranha e proibida. Mas ao mesmo tempo aquele lugar me era maravilhosamente familiar. Meus questionamentos acerca da vida, pareciam estarem sendo postos no lugar certo. Sentia-me profundamente acolhido em minha oração. Foi um momento mágico.
Isto aconteceu há mais ou menos 6 anos atrás. Mas na semana passada, depois de visitar o museu do futebol, sonhei com aquele momento e com o salmo 137, e foi muito bom lembrar aquilo tudo. Por isso resolvi compartilhar com você estes sentimentos e emoções.
Qual é o seu lugar de encontro com Deus e com você mesmo?
O que é sagrado pra você?
Como você se sente depois que você sai “quarto”? Mt. 6.6
Com carinho, Pr. Marcelo
30 de setembro de 2008
DIAS DIFÍCEIS
Alguns dias parecem que não acabam. A sensação é a de que todas as forças se foram e mais nada poderia acontecer. E aí acontece ainda algo pior. Em dias como estes viver é apenas o mesmo que respirar e a única garantia que se tem de estar vivo é que de alguma forma se vê o corpo em pé, com movimentos e percebe-se que os olhos, por vezes, estão abertos.
Não é à toa que em momentos assim se prefere morrer a viver. Personagens que conhecemos na Bíblia, servos de Deus fiéis e usados por Deus com triunfos memoráveis passaram por isto. Elias pediu pra si a morte, Jeremias amaldiçoou o dia de seu nascimento Davi se viu como uma espécie de morto-vivo quando diz: “laços de morte me cercaram...”
Dias difíceis são aqueles em que a dor se alonga e se perpetua. Corpo que dói não lembra de quando era são. Não dá pra um dente que não dói servir de exemplo ou de consolo para o que está doendo. É o contrário o que acontece. A cabeça inteira dói. O corpo adoece por inteiro e sempre em uma espécie de progressão do mal. De novo os salmos: “um abismo chama outro abismo” “estou cansado de tanto gemer” “meus ossos doem”.
Dias difíceis ocorre a todo ser humano. Inclusive aos que têm um relacionamento de fidelidade ao Senhor. Eles são a mostra do que a Bíblia chama de período de tribulação. Por tribulação podem-se entender diversos significados. Sofrimentos, angústias ou decepções internas; Atrocidades, injustiças ou mazelas externas que nos atingem; condenação ou punição por um ato de injustiça cometido; ou ainda algo que aconteça sem nenhum propósito aparente ou revelado.
Encontramos do Gênesis ao Apocalipse expressão que denotam estes períodos de dias difíceis: “Quarenta dias e quarenta noites” na Arca de Noé, e a expressão “tribulação de dez dias”, no Apocalipse. Tudo isso passando por 400 anos no deserto, 70 anos no exílio, 3 dias vividos no ventre do peixe, ou na sepultura, 12, 18 ou 38 anos de sofrimento de pessoas que encontraram a Jesus, nos evangelhos, ou ainda expressões sem o período de tempo definido tais quais encontramos no profeta Jeremias “por um breve período de tempo”, “por certo tempo”, ou no Apóstolo Pedro “por breve tempo, se necessário”.
Dias difíceis passam e dias melhores vêm. Isto é o que acontece sempre. Mesmo que o corpo tenha se esquecido do que é não sentir dor, chega o memento em que ela passa. Toda dor tem um propósito. E ela não passa até que cumpra o seu telos. Em cada uma das ocasiões citadas houve um final. Final da dor. A grande diferença de todos aqueles casos e a nossa história é que nós ainda não chegamos no final. Os dias difíceis ainda estão aí. Aqueles casos se traduziram em Revelação de Deus a nós: de um Deus que não nos omite dias difíceis; de um Deus que está conosco enquanto passamos por eles; de um Deus que nos faz ter esperança de que dias melhores virão.
“Em minha tribulação invoquei o Senhor. E o Senhor me ouviu e me deu folga” Sl 118.5
com carinho, Pr. Marcelo
28 de agosto de 2008
O QUE FAZ DEUS FELIZ?

O primeiro é o da videira e dos ramos. Diz lá que Deus é glorificado quando a gente dá muito fruto. Bom, pra gente poder dar fruto a gente tem que ser árvore viva e o mesmo texto diz que nós somos árvores vivas porque somos os galhos da videira verdadeira que é Cristo. Aliás, a gente só é galho vivo, que pode dar fruto, se estivermos em Cristo. Ele mesmo fala neste texto que sem ele nós não conseguiríamos realizar nada. “sem mim, nada podeis fazer” a gente também sabe pela Bíblia Sagrada que Deus gosta tanto de ser glorificado que uma vez disse: “a minha Glória não dou a ninguém”.
Então podemos afirmar que Deus fica feliz quando é glorificado. E que, portanto, se você é alguém cuja vida dá muito fruto, isso faz Deus feliz. Então o que eu disse antes está certo. Você faz Deus feliz!
A questão agora é. Quando é que eu faço Deus feliz? E a resposta é: quando eu dou muito fruto. Daí eu lhe convido a olhar outro texto bíblico em sua memória. Aquele que fala do que é o fruto do Espírito.
Eu tenho pra mim, que dar muito fruto nem é trazer gente pra Igreja, nem distribuir milhões de folhetos ou nem tampouco trabalhar a vida inteira na Igreja até que a nossa alma desmaie e o nosso coração seque por causa das frustrações que o serviço cristão nos dá. Não. Não acho que seja o trabalho cristão que faz Deus feliz.
O que faz Deus feliz é gente que ama. Quando você ama você faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é Amor.
O que faz Deus feliz é gente feliz. Quando você está alegre e vive uma vida de alegria, isso faz Deus sorri pra você. Porque o fruto do Espírito é alegria.
O que faz Deus feliz é gente que é agente da paz. Gente que quando fala, apazigua os corações ao seu lado. Porque o fruto do Espírito é paz. Deus não fica feliz quando as suas palavras geram conflito e perturbação nas pessoas.
O faz Deus feliz é gente paciente. Gente que sabe esperar pelo bem na vida, sem esmorecer e sem desistir pela falta de paciência. Ser paciente é não tentar resolver tudo sempre do seu jeito. É esperar em Deus, porque o fruto do Espírito é paciência.
O que faz Deus feliz são pessoas amáveis. Gente de quem a pessoas gostam, fazem Deus feliz enquanto vivem. Deus fica muito feliz quando outras pessoas ficam felizes com você. Porque o fruto do Espírito é amabilidade
O que faz Deus feliz são pessoas bondosas. Fazer o bem, faz Deus feliz. Ele é glorificado quando nossa luz (nossas boas obras) aparece. Ser bom em todos os seus passos é bom e faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é bondade.
O que faz Deus feliz é gente que se cuida. E gente que se cuida é fiel e sabe onde pode pisar o seu pé. Gente que se cuida é mansa. Não se perde nem se desespera com o que não pode resolver. Entrega nas mãos de Deus. E Deus fica feliz quando entregamos as coisas que nos tiram a mansidão à Ele. Gente que se cuida sabe dos seus limites. E consegue andar sempre aquém deles, pra não cair e não se machucar.. Quem se cuida faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Eu afirmei que você faz Deus feliz. Você concorda?
Com carinho, Pr. Marcelo
Em 28/08/2008
22 de agosto de 2008
AS AMORAS E O INVERNO
Refiro-me, especificamente, à esterilidade que gosta do inverno por companhia. As gramas estão marrons. As parreiras e macieiras são como galhos de um arbusto que morreu. Feios, empalidecidos, como gravetos prontos pra ir à fogueira. A maioria das árvores está hibernando como fazem os ursos. E, por isso, nos omitem suas sombras, suas danças e suas belezas. Os vales e os montes estão todos tristes e macambúzios... É inverno!
Lá em casa tem dois pés de amora de ficam de frente à janela da sala. São novinhos ainda. Mas nem por isso são tímidos em nos alegrar com suas crias. Cada uma mais linda e mais deliciosa que a outra. São das grandes. Rechonchudas. Minha relação com estes pés de amora já dura 4 anos. Eram duas plantinhas quando lá cheguei. Hoje eu cuido deles, amarro os galhos depois da temporada porque quem passa por ali não resiste, mete a mão. E onde a mão não alcança, a outra puxa o galho até que a amora fique ao alcance do seu sorriso de conquista. Tudo isso sem se importar com os galhos que vão caindo, caindo até quebrar. A certa altura eles parecem aqueles velhinhos cansados e corcundas que deram a vida por seu trabalho e por servir os outros. Estão cumprindo sua missão. Pés de amora existem para que pessoas parem na frente deles e tenham a experiência única e fugaz do prazer. Como todo prazer tem um preço, alguns galhos se vão, eternamente.
As amoreiras fazem o caminho inverso das parreiras e das macieiras. No verão, enquanto as uvas e as maçãs reinam, as amoreiras estão como mortas, esquecidas de todos. Dava uma tristeza enorme olhar pra elas todos os dias e lembrar com saudade do tempo de outrora. Me fez reviver, à minha maneira o poema de Casimiro de Abreu. Era como se eu sentisse também saudades da aurora da vida.
Mas agora elas estão lá. No começo ainda, mas percebe-se claramente que tanto as amoras quanto os seus galhos cumprirão mais uma vez a exuberante missão de fazer as pessoas felizes. Sim, elas voltaram!
Invernos não duram pra sempre. Na vida há hibernações de alegria e de produção. Sofrimento. Mas eles também não duram pra sempre. Uma boa lição que aprendo com as minhas duas amoreiras é que a tristeza também é efêmera. Tristeza é saudade do sorriso. E a gente só sente saudade do que existe. Do que amamos. Passamos pelo sofrimento com a esperança de que sorriso existe e voltará. Assim como as amoras, que a cada dia entre os meses de agosto e outubro, voltam a sorrir e a fazer sorrir. Lembre-se: a amoras voltaram; o sorriso voltará!
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (salmo de Davi)
“E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede.”
Com carinho, Pr. Marcelo
Em 21/08/2008.
SOBRE A ESPERANÇA E O ESPERAR
Acontece até de a gente passar em algum lugar e perguntar curioso: que fila é essa? Pensamos: se tem fila, deve ser coisa boa. Algo que justifique a espera. A pergunta vem de um lugar do desejo. Quem sabe não haja algo aqui que me faça mais feliz? Na verdade a gente pega fila por coisas essenciais: emprego, dinheiro, saúde, educação, até para pagar contas.
Hospital é um lugar onde ninguém quer ir mas que todo mundo vai. E lá, a gente pode estar certo: vai Ter fila. Teremos que esperar para pegar a senha. Senha: lugar em outra fila. Então esperamos o médico chamar. O que ele diz? – Vamos precisar de um exame. E lá vamos nós para mais uma fila. Uma para fazer o exame e outra para saber o resultado. Então, horas depois voltamos ao mesmo médico. Chegando lá o que encontramos: outra fila. É assim mesmo. Hospital é lugar de esperar.
Mas hospital também é lugar de esperança. Após um trágico acidente, queremos primeiro saber se a vítima já foi para o hospital. – Pelo menos ele está sendo tratado, pensamos. Há esperança. Quando o pai aguarda ansioso a chegada do primeiro filho, aquele corredor por onde ele anda sem parar, pode ser chamado de lugar de esperança. Hospital é lugar onde se vai buscar cuidados especiais, curas, respostas não sabidas nos demais lugares. Dizemos para quem vai para o hospital: - você vai ficar bom! Que esperança! É onde moram os mistérios do corpo, onde atendem os gurus modernos. Aqueles que dão nomes (ainda que agente não entenda) às coisas que sentimos. Curioso, às vezes, só de saber que o que a gente sente tem um nome em algum livro, agente já se sente melhor. Por que será?
A esperança e a espera são irmãs. Elas moravam na mesma casa. Um dia, se separaram e algo aconteceu.
A espera decidiu morar nas ruas, na filas, nas repartições públicas, nos bancos, enfim nos lugares mais comuns e quase sempre muito chatos. A gente espera até a última hora para não precisar ir a estes lugares. Por que? Porque esperar é muito chato. É até despeitoso às vezes. A esperança, mais nobre , decidiu morar nos templos religiosos, na fábulas infantis, nas poesias, nos campos de girassóis, nas azaléias (nestas ela só fica nos meses do inverno), no sorriso da criança. Esperança não mora em lugar onde não há amor. “Ali pois permanecem a fé, a esperança e o amor, destes três porém, o maior deles é o amor”.
De vez em quando, as irmãs separadas resolvem se encontrar. Quase sempre elas se encontram num hospital. Hospital é lugar que tem fila mas que também tem sorrisos, azaléias, livros infantis, capelas, cultos e orações.
Havia um tanque em uma cidade chamada Betesda. Era um hospital. Betesda significa “casa de misericórdia”. Só que este hospital não era como os de hoje que ficam abertos 24 horas. Ele só abria uma vez por ano. Imagina o tamanho da fila? Para este lugar, afluía uma enorme multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos. Todos iam lá com muita esperança. Pois eles acreditavam segundo uma história (histórias também são lugares de esperança) que a certo tempo descia ali no tanque um anjo, que agitava a água e a primeira pessoa que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse. Eu tenho dúvidas se havia mesmo um anjo ou se o que curava as pessoas era a fé naquela história.
Por mais que o hospital seja um lugar cheio de gente ferida, machucada no corpo e na alma, gente gemendo de dor, crianças com medo, pessoas estranhas e esperas, às vezes, intermináveis. Ele pode ser também lugar de esperança. Lugar onde você aproveita para refazer a vida, reeditar seus valores, estabelecer novas prioridades, reconhecer-se limitado e frágil (Felizes os humildes de espírito...), deixar ser cuidado e tratado pelas mãos humanas e pelas divinas.
Uma lembrança: nem sempre as irmãs se encontram.
Algumas dicas: Observe o sorriso das crianças. Leia um bom livro (talvez uma fábula). E aproveite as azaléias (elas estarão te esperando nos meses do inverno).
Um pensamento: Não há lugar mais paradoxal do que um hospital. Aqui trabalham os profissionais da saúde, mas o que eles fazem é lidar, quase sempre, com a doença. Às vezes agente ouve: - tem uma BPC no 9-A, ou – leve para o linfoma do quarto 3.
Uma letra de Chico: Pedro pedreiro, penseiro esperando o trem... Esperando, esperando, esperando, esperando o sol... ...é a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem...