8 de abril de 2009

A RESSURREIÇÃO NA VIDA DE TODOS NÓS

A mensagem da Ressurreição de Cristo dentre os mortos não é apenas uma doutrina em que se creia, é uma verdade que se experimenta na vida.

No credo apostólico dizemos “Creio na ressurreição do corpo”. Mas por que dizemos isso? Dizemos porque desejamos. Crenças são traduções dos nossos desejos. Entretanto, a doutrina da ressurreição é desejo sim, mas que se realiza no dia-a-dia dos cristãos. É um sonho que se tornou realidade. “E vimos sua glória como a do unigênito do Pai”. Então como é que se vive o sonho realizado da ressurreição?

Vivemos a ressurreição de Cristo em nós quando experimentamos a esperança. E sem esperança não se vive. “Agora pois permanecem a fé, a esperança e o amor”. Um autor que escreveu sobre a morte de criancinhas indefesas e doentes disse que “a esperança é o que surge quando a fé acaba”. Quando não há mais fé e quando o amor está longe do abraço, somente a esperança nos sustenta. Não é a toa que se fala tanto de esperança quando se tem que enfrentar os espinhos e as agruras da morte. Isso porque muita coisa termina com a morte; a esperança não. Ela permanece e nos leva para o lugar seguro em que olhamos a vida passar e descobrimos que vale a pena continuar vivendo. O poeta disse que “a saudade é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu”. A esperança nos segura nesta hora e nos faz firmes e teimosos em aguardar a vitória final.

Hoje celebramos a ressurreição daquele que se fez penhor (garantia) da nossa ressurreição. Celebramos a saudade e a esperança. Sim, estamos vivos! E estamos porque já experimentamos várias vezes o milagre de Cristo em nós. A morte de Cristo é também símbolo de alguém que experimentou o maior sofrimento humano, para que todos os humanos pudessem, juntos com Cristo, pela fé, passar por seus sofrimentos. A ressurreição de Cristo é também símbolo da vitória sobre as crises, perdas e decepções da vida. Por isso, embora ela parta da dura realidade da morte [sem morte não há ressurreição e, portanto, não há vitória] ela é o maior motivo da celebração e da alegria daqueles que professam a Cristo em suas vidas.

Aleluia! Cristo ressuscitou!

Aleluia! Vencemos com Cristo!

Vamos celebrar!

Boa páscoa a todos, Pr. Marcelo, em 08/04/2002

11 de outubro de 2008

SANTUÁRIO... da alma e do futebol



Parecia uma manhã como as demais. Tirando o fato de que um desânimo enorme se apoderou de mim. Eu tinha o costume de, por duas ou três manhãs da semana, ir até o estádio do Pacaembu e lá fazer meus exercícios físicos e finalizá-los com uma corridinha na pista ao redor do campo de futebol. [Certa vez não resisti e pisei o gramado. Foi fantástico!] Mas naquele dia não fui lá pra isso. Não tinha forças pra me exercitar, nem tampouco correr. Acho que o que eu queria mesmo era correr pra longe dos problemas e da aflição da minha alma.

De repente me ocorreu ir para um lugar onde eu pudesse ficar só comigo mesmo para assim, quem sabe, encontrar o Senhor na minha oração. A Bíblia fala que estes momentos deveriam ser vivenciados no ´teu quarto´. E eu estava mesmo era à procura de um lugar desses.

Estacionei o carro e comecei a caminhar pela pista e a falar com Deus. Meus olhos contemplavam de um lado e do outro, milhares de assentos vazios na arquibancada. E minha memória oscilava entre lembrar que Deus cuida de mim mesmo sendo eu mais um entre milhares e que aquele lugar tão silencioso é também o lugar de pessoas em êxtase tomadas de todas as emoções possíveis. Era como se eu ouvisse duas vozes: uma a que dizia: você continua sendo meu filho amado e a outra, bem longe, insistia em toar: “timão eh ô...”

Percebi que eu estava no lugar certo para o encontro desejado. Quase no final da volta na pista, olhei para um lado e para outro e, não vendo ninguém que me reprovasse, e percebendo que não causaria mal nenhum ao patrimônio público, resolvi subir a arquibancada do lado esquerdo do tobogã. Lá estava eu: “às margens do campo de futebol subi as arquibancadas e lá me assentei e chorei”. Na hora não vi nenhuma semelhança com os rios da babilônia, em cujas margens os israelitas se assentavam e choravam lembrando a terra santa. Todavia, hoje vejo que experimentei todos aqueles sentimentos relatados no salmo: saudade, tristeza, injustiça, e outros.

Não demorou muito a vir um funcionário e gritar lá de baixo algo que eu fiz questão de não ouvir, pois estava ocupado demais para olhar pra ele. Percebi então que ele começou a subir a arquibancada, bem como o que ele viria fazer ali. Mas aproveitei intensamente aqueles minutos que ele demorou pra vir onde eu estava.

Eu me sentia em terra estranha e proibida. Mas ao mesmo tempo aquele lugar me era maravilhosamente familiar. Meus questionamentos acerca da vida, pareciam estarem sendo postos no lugar certo. Sentia-me profundamente acolhido em minha oração. Foi um momento mágico.

Isto aconteceu há mais ou menos 6 anos atrás. Mas na semana passada, depois de visitar o museu do futebol, sonhei com aquele momento e com o salmo 137, e foi muito bom lembrar aquilo tudo. Por isso resolvi compartilhar com você estes sentimentos e emoções.

Qual é o seu lugar de encontro com Deus e com você mesmo?
O que é sagrado pra você?
Como você se sente depois que você sai “quarto”? Mt. 6.6

Com carinho, Pr. Marcelo

30 de setembro de 2008

DIAS DIFÍCEIS


Alguns dias parecem que não acabam. A sensação é a de que todas as forças se foram e mais nada poderia acontecer. E aí acontece ainda algo pior. Em dias como estes viver é apenas o mesmo que respirar e a única garantia que se tem de estar vivo é que de alguma forma se vê o corpo em pé, com movimentos e percebe-se que os olhos, por vezes, estão abertos.

Não é à toa que em momentos assim se prefere morrer a viver. Personagens que conhecemos na Bíblia, servos de Deus fiéis e usados por Deus com triunfos memoráveis passaram por isto. Elias pediu pra si a morte, Jeremias amaldiçoou o dia de seu nascimento Davi se viu como uma espécie de morto-vivo quando diz: “laços de morte me cercaram...”

Dias difíceis são aqueles em que a dor se alonga e se perpetua. Corpo que dói não lembra de quando era são. Não dá pra um dente que não dói servir de exemplo ou de consolo para o que está doendo. É o contrário o que acontece. A cabeça inteira dói. O corpo adoece por inteiro e sempre em uma espécie de progressão do mal. De novo os salmos: “um abismo chama outro abismo” “estou cansado de tanto gemer” “meus ossos doem”.

Dias difíceis ocorre a todo ser humano. Inclusive aos que têm um relacionamento de fidelidade ao Senhor. Eles são a mostra do que a Bíblia chama de período de tribulação. Por tribulação podem-se entender diversos significados. Sofrimentos, angústias ou decepções internas; Atrocidades, injustiças ou mazelas externas que nos atingem; condenação ou punição por um ato de injustiça cometido; ou ainda algo que aconteça sem nenhum propósito aparente ou revelado.

Encontramos do Gênesis ao Apocalipse expressão que denotam estes períodos de dias difíceis: “Quarenta dias e quarenta noites” na Arca de Noé, e a expressão “tribulação de dez dias”, no Apocalipse. Tudo isso passando por 400 anos no deserto, 70 anos no exílio, 3 dias vividos no ventre do peixe, ou na sepultura, 12, 18 ou 38 anos de sofrimento de pessoas que encontraram a Jesus, nos evangelhos, ou ainda expressões sem o período de tempo definido tais quais encontramos no profeta Jeremias “por um breve período de tempo”, “por certo tempo”, ou no Apóstolo Pedro “por breve tempo, se necessário”.

Dias difíceis passam e dias melhores vêm. Isto é o que acontece sempre. Mesmo que o corpo tenha se esquecido do que é não sentir dor, chega o memento em que ela passa. Toda dor tem um propósito. E ela não passa até que cumpra o seu telos. Em cada uma das ocasiões citadas houve um final. Final da dor. A grande diferença de todos aqueles casos e a nossa história é que nós ainda não chegamos no final. Os dias difíceis ainda estão aí. Aqueles casos se traduziram em Revelação de Deus a nós: de um Deus que não nos omite dias difíceis; de um Deus que está conosco enquanto passamos por eles; de um Deus que nos faz ter esperança de que dias melhores virão.

“Em minha tribulação invoquei o Senhor. E o Senhor me ouviu e me deu folga” Sl 118.5

com carinho, Pr. Marcelo

28 de agosto de 2008

O QUE FAZ DEUS FELIZ?


Você. Isso mesmo, você. A sua vida faz Deus feliz. Vamos ver, todavia, em que circunstâncias isso acontece. Precisamos então examinar, pelo menos, dois textos bíblicos.


O primeiro é o da videira e dos ramos. Diz lá que Deus é glorificado quando a gente dá muito fruto. Bom, pra gente poder dar fruto a gente tem que ser árvore viva e o mesmo texto diz que nós somos árvores vivas porque somos os galhos da videira verdadeira que é Cristo. Aliás, a gente só é galho vivo, que pode dar fruto, se estivermos em Cristo. Ele mesmo fala neste texto que sem ele nós não conseguiríamos realizar nada. “sem mim, nada podeis fazer” a gente também sabe pela Bíblia Sagrada que Deus gosta tanto de ser glorificado que uma vez disse: “a minha Glória não dou a ninguém”.


Então podemos afirmar que Deus fica feliz quando é glorificado. E que, portanto, se você é alguém cuja vida dá muito fruto, isso faz Deus feliz. Então o que eu disse antes está certo. Você faz Deus feliz!


A questão agora é. Quando é que eu faço Deus feliz? E a resposta é: quando eu dou muito fruto. Daí eu lhe convido a olhar outro texto bíblico em sua memória. Aquele que fala do que é o fruto do Espírito.


Eu tenho pra mim, que dar muito fruto nem é trazer gente pra Igreja, nem distribuir milhões de folhetos ou nem tampouco trabalhar a vida inteira na Igreja até que a nossa alma desmaie e o nosso coração seque por causa das frustrações que o serviço cristão nos dá. Não. Não acho que seja o trabalho cristão que faz Deus feliz.


O que faz Deus feliz é gente que ama. Quando você ama você faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é Amor.


O que faz Deus feliz é gente feliz. Quando você está alegre e vive uma vida de alegria, isso faz Deus sorri pra você. Porque o fruto do Espírito é alegria.


O que faz Deus feliz é gente que é agente da paz. Gente que quando fala, apazigua os corações ao seu lado. Porque o fruto do Espírito é paz. Deus não fica feliz quando as suas palavras geram conflito e perturbação nas pessoas.


O faz Deus feliz é gente paciente. Gente que sabe esperar pelo bem na vida, sem esmorecer e sem desistir pela falta de paciência. Ser paciente é não tentar resolver tudo sempre do seu jeito. É esperar em Deus, porque o fruto do Espírito é paciência.


O que faz Deus feliz são pessoas amáveis. Gente de quem a pessoas gostam, fazem Deus feliz enquanto vivem. Deus fica muito feliz quando outras pessoas ficam felizes com você. Porque o fruto do Espírito é amabilidade


O que faz Deus feliz são pessoas bondosas. Fazer o bem, faz Deus feliz. Ele é glorificado quando nossa luz (nossas boas obras) aparece. Ser bom em todos os seus passos é bom e faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é bondade.


O que faz Deus feliz é gente que se cuida. E gente que se cuida é fiel e sabe onde pode pisar o seu pé. Gente que se cuida é mansa. Não se perde nem se desespera com o que não pode resolver. Entrega nas mãos de Deus. E Deus fica feliz quando entregamos as coisas que nos tiram a mansidão à Ele. Gente que se cuida sabe dos seus limites. E consegue andar sempre aquém deles, pra não cair e não se machucar.. Quem se cuida faz Deus feliz, porque o fruto do Espírito é fidelidade, mansidão e domínio próprio.


Eu afirmei que você faz Deus feliz. Você concorda?

Com carinho, Pr. Marcelo
Em 28/08/2008

22 de agosto de 2008

AS AMORAS E O INVERNO


O inverno é uma metáfora vida. O frio já não é mais uma marca tão importante dos últimos invernos. Estive na cidade tida como a mais fria do Brasil e por lá ouvi: - Frio, frio mesmo de -4ºC a gente não vê faz uns dez anos e dizem as previsões que, devido ao aquecimento global nunca mais haverão dias como aqueles. Que pena!


Refiro-me, especificamente, à esterilidade que gosta do inverno por companhia. As gramas estão marrons. As parreiras e macieiras são como galhos de um arbusto que morreu. Feios, empalidecidos, como gravetos prontos pra ir à fogueira. A maioria das árvores está hibernando como fazem os ursos. E, por isso, nos omitem suas sombras, suas danças e suas belezas. Os vales e os montes estão todos tristes e macambúzios... É inverno!


Lá em casa tem dois pés de amora de ficam de frente à janela da sala. São novinhos ainda. Mas nem por isso são tímidos em nos alegrar com suas crias. Cada uma mais linda e mais deliciosa que a outra. São das grandes. Rechonchudas. Minha relação com estes pés de amora já dura 4 anos. Eram duas plantinhas quando lá cheguei. Hoje eu cuido deles, amarro os galhos depois da temporada porque quem passa por ali não resiste, mete a mão. E onde a mão não alcança, a outra puxa o galho até que a amora fique ao alcance do seu sorriso de conquista. Tudo isso sem se importar com os galhos que vão caindo, caindo até quebrar. A certa altura eles parecem aqueles velhinhos cansados e corcundas que deram a vida por seu trabalho e por servir os outros. Estão cumprindo sua missão. Pés de amora existem para que pessoas parem na frente deles e tenham a experiência única e fugaz do prazer. Como todo prazer tem um preço, alguns galhos se vão, eternamente.


As amoreiras fazem o caminho inverso das parreiras e das macieiras. No verão, enquanto as uvas e as maçãs reinam, as amoreiras estão como mortas, esquecidas de todos. Dava uma tristeza enorme olhar pra elas todos os dias e lembrar com saudade do tempo de outrora. Me fez reviver, à minha maneira o poema de Casimiro de Abreu. Era como se eu sentisse também saudades da aurora da vida.


Mas agora elas estão lá. No começo ainda, mas percebe-se claramente que tanto as amoras quanto os seus galhos cumprirão mais uma vez a exuberante missão de fazer as pessoas felizes. Sim, elas voltaram!


Invernos não duram pra sempre. Na vida há hibernações de alegria e de produção. Sofrimento. Mas eles também não duram pra sempre. Uma boa lição que aprendo com as minhas duas amoreiras é que a tristeza também é efêmera. Tristeza é saudade do sorriso. E a gente só sente saudade do que existe. Do que amamos. Passamos pelo sofrimento com a esperança de que sorriso existe e voltará. Assim como as amoras, que a cada dia entre os meses de agosto e outubro, voltam a sorrir e a fazer sorrir. Lembre-se: a amoras voltaram; o sorriso voltará!

“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (salmo de Davi)

“E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede.”
Com carinho, Pr. Marcelo
Em 21/08/2008.

SOBRE A ESPERANÇA E O ESPERAR

Espera-se por muita coisa nesta vida. Dizia-se da mulher grávida que ela estava “esperando”. Onde quer que vamos, há sempre uma fila. Lugar de espera. Se vamos ao cinema, enfrentamos a fila do transito; a fila do estacionamento; a fila para comprar o ingresso; a fila para a pipoca; fila para entrar; fila para sair, e assim vai.

Acontece até de a gente passar em algum lugar e perguntar curioso: que fila é essa? Pensamos: se tem fila, deve ser coisa boa. Algo que justifique a espera. A pergunta vem de um lugar do desejo. Quem sabe não haja algo aqui que me faça mais feliz? Na verdade a gente pega fila por coisas essenciais: emprego, dinheiro, saúde, educação, até para pagar contas.

Hospital é um lugar onde ninguém quer ir mas que todo mundo vai. E lá, a gente pode estar certo: vai Ter fila. Teremos que esperar para pegar a senha. Senha: lugar em outra fila. Então esperamos o médico chamar. O que ele diz? – Vamos precisar de um exame. E lá vamos nós para mais uma fila. Uma para fazer o exame e outra para saber o resultado. Então, horas depois voltamos ao mesmo médico. Chegando lá o que encontramos: outra fila. É assim mesmo. Hospital é lugar de esperar.

Mas hospital também é lugar de esperança. Após um trágico acidente, queremos primeiro saber se a vítima já foi para o hospital. – Pelo menos ele está sendo tratado, pensamos. Há esperança. Quando o pai aguarda ansioso a chegada do primeiro filho, aquele corredor por onde ele anda sem parar, pode ser chamado de lugar de esperança. Hospital é lugar onde se vai buscar cuidados especiais, curas, respostas não sabidas nos demais lugares. Dizemos para quem vai para o hospital: - você vai ficar bom! Que esperança! É onde moram os mistérios do corpo, onde atendem os gurus modernos. Aqueles que dão nomes (ainda que agente não entenda) às coisas que sentimos. Curioso, às vezes, só de saber que o que a gente sente tem um nome em algum livro, agente já se sente melhor. Por que será?

A esperança e a espera são irmãs. Elas moravam na mesma casa. Um dia, se separaram e algo aconteceu.

A espera decidiu morar nas ruas, na filas, nas repartições públicas, nos bancos, enfim nos lugares mais comuns e quase sempre muito chatos. A gente espera até a última hora para não precisar ir a estes lugares. Por que? Porque esperar é muito chato. É até despeitoso às vezes. A esperança, mais nobre , decidiu morar nos templos religiosos, na fábulas infantis, nas poesias, nos campos de girassóis, nas azaléias (nestas ela só fica nos meses do inverno), no sorriso da criança. Esperança não mora em lugar onde não há amor. “Ali pois permanecem a fé, a esperança e o amor, destes três porém, o maior deles é o amor”.

De vez em quando, as irmãs separadas resolvem se encontrar. Quase sempre elas se encontram num hospital. Hospital é lugar que tem fila mas que também tem sorrisos, azaléias, livros infantis, capelas, cultos e orações.

Havia um tanque em uma cidade chamada Betesda. Era um hospital. Betesda significa “casa de misericórdia”. Só que este hospital não era como os de hoje que ficam abertos 24 horas. Ele só abria uma vez por ano. Imagina o tamanho da fila? Para este lugar, afluía uma enorme multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos. Todos iam lá com muita esperança. Pois eles acreditavam segundo uma história (histórias também são lugares de esperança) que a certo tempo descia ali no tanque um anjo, que agitava a água e a primeira pessoa que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse. Eu tenho dúvidas se havia mesmo um anjo ou se o que curava as pessoas era a fé naquela história.

Por mais que o hospital seja um lugar cheio de gente ferida, machucada no corpo e na alma, gente gemendo de dor, crianças com medo, pessoas estranhas e esperas, às vezes, intermináveis. Ele pode ser também lugar de esperança. Lugar onde você aproveita para refazer a vida, reeditar seus valores, estabelecer novas prioridades, reconhecer-se limitado e frágil (Felizes os humildes de espírito...), deixar ser cuidado e tratado pelas mãos humanas e pelas divinas.

Uma lembrança: nem sempre as irmãs se encontram.

Algumas dicas: Observe o sorriso das crianças. Leia um bom livro (talvez uma fábula). E aproveite as azaléias (elas estarão te esperando nos meses do inverno).

Um pensamento: Não há lugar mais paradoxal do que um hospital. Aqui trabalham os profissionais da saúde, mas o que eles fazem é lidar, quase sempre, com a doença. Às vezes agente ouve: - tem uma BPC no 9-A, ou – leve para o linfoma do quarto 3.

Uma letra de Chico: Pedro pedreiro, penseiro esperando o trem... Esperando, esperando, esperando, esperando o sol... ...é a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem...

5 de abril de 2008

Azaléia é fogo! Amor é fogo!



Camões enaltece o amor de uma forma assustadoramente bela. “O amor é fogo que arde sem se ver”. O curioso é que para se dizer que algo é bom, belo e digno de admiração é necessário que se mostre sua face nefasta e cruel. Adélia prado diz. “O amor é a coisa mais bela; o amor é a coisa mais triste; o amor é a coisa que eu mais quero”. Só desejamos algo de fato, quando se nos é revelado seu todo. Os dois lados. Em tudo há dois lados: o belo e feio, o triste e o alegre. Por isso é que Camões diz que o amor é uma ferida que dói mas não dói; que o amor é uma estranha mistura entre o ganho e a perda, entre o querer e não-querer entre a prisão e a liberdade.

É isto que o faz definir tão bem e tão concretamente algo que é misterioso e abstrato, porque esta é a verdade. Não a verdade de um poeta sobre o amor mas a verdade que existe em cada um de nós. Sabemos que é assim. Quando temos uma compreensão mística de algo que mora nas nossas profundezas e então ouvimos aqui fora o que já havia sido dito lá dentro, somos seduzidos pela palavra. E não há melhor forma de persuasão. Porque não fomos persuadidos por um outro mas por nós mesmos. Eu e você temos um quê de Camões, de Shakespeare na nossa compreensão acerca do amor. Sabemos que é assim mesmo e persistimos em não aceitar amor atrelado à morte, virtude irmã da fraqueza.

Quando chega o inverno, e eu vejo o amor que exala das flores das azaléias espalhadas por todos os cantos, lembro de Camões. Lembro que são possíveis coisas belas no inverno, lembro que o esquecido tornou-se revelado, lembro que o desprezo, que o trivial, que o comum têm também seu momento de esplendor e enaltação. Azaléias são aqueles pequenos arbustos com uma folhinha verde-escura e bem grossa. Parece até planta brava. Mas quando chega o seu tempo de florescer, o verde empresta o lugar ao brilho das flores, o que era rústico vira singelesa, poesia.

O brilho é tão forte que quase chega a ser agressivo. Dá até medo. Assim como temos medo de amar. Medo por ter sentimentos tão fortes como aquele que nos surgem de repente. O mesmo medo de que falou Vinícius no soneto do amor total. Seu medo era tal e seu sentimento tão estranho a si mesmo, que dizia: “hei de morrer de amar mais que pude”.

Azaléia é fogo porque ela é uma metáfora do amor. Só ama que consegue passar o ano com o rústico para então deleitar-se com a beleza. Só é tomado de temor frente ao brilho esfuziante das flores, quem por longo tempo acariciou a pequena e despretensiosa folhinha verde e peluda. A carícia era sinal de aceitação. Quando agente ama agente diz: ainda que não seja hoje o dia da flor eu continuarei a teu lado a acariciar-te, continuarei a amar-te. É quando o amor penetra até às raízes da planta. Ama-se cada parte dela. Tanto a vista quanto a não vista tanto as flores como as folhas, como o caule e também as raízes, ainda que não saibamos como elas são (e é melhor que não saibamos, pode morrer!). Amar é ter raízes... É de lá que brotam as flores.

O grande problema dos relacionamentos é quando eles são baseados apenas na flor. Enquanto te vejo bela te amo. E quando a flor cai? Então o arbusto é abandonado mesmo que ele não entenda o porque. pois [pensa:] continua sendo o que sempre foi; voltará a ter/ser flores.

Na verdade não se a amava o todo; amava-se apenas a beleza efêmera da flor. O pólen que atrai as abelhas no cio foi o que promoveu o mesmo cio humano e insaciável.

O que faz então este amante/inseto? Vai a procura de outras flores, mais ou menos belas que esta. Não importa. Importa que sejam flores, que tenham um bom cheiro, uma boa cor, umas pétalas macias, um libidinoso pólen...

Procura um amor que não existe. Um amor que só tem um lado. Que ao contrário do que pensa (alegria realização, gozo) apenas dói, queima, fere e machuca. Machuca a si mesmo, tal como ficaram feridas as rosas deixadas pelo caminho.

Castro Alves diz que o verdadeiro amor não exclui o pejo. Não há amor sem preço, sem entrega, sem compreensão da verdade, do todo do amor.

É possível fazer amor como o das azaléias. Casamento é isso: um encontro com a rosa e um abraço muitas vezes espinhoso e sangrento. Mas é sangue de amor que dói mas não dói, que rasga a pele mas penetra o fundo do peito. É acariciar o arbusto que mais ninguém vê. É fazer o outro saber que você admira a beleza que ele é e não apenas as flores que tem.
Amo as azaléias, principalmente quando elas não são notadas; quando estão adormecidas. E aí, deito ao lado delas e tenho um gostoso sonho e vejo que o verdadeiro amor é possível.

20 de março de 2008

Páscoa - uma imposição do bem

Sugiro que aproveites do clima que a data religiosa promove e faças uma viagem pra dentro de si mesmo , de sua alma e procures uma vivência com o ´Totalmente Outro´* que se impõe em visitar-nos nesta semana memorável.

um breve momento de reflexão**, um abraço bem apertado na pessoa amada, ou uma disciplina maior que o leve a reviver experiências religiosas de raizes são algumas dicas.

Boa Páscoa a todos.
*Expressão utilizada por Rudolf Otto em "O Sagrado" para designar a existência de um ser superior a quem os cristãos chamam de Deus.

**O texto do Pastor Saulo em http://ipesperanca.blospot.com/ é uma sugestão.