24 de janeiro de 2008

O Trem da Esperança - Estação Perus

O trem leva e traz pessoas. Pessoas que partem pra voltar após um dia pesado de trabalho. Enquanto o sol ainda não veio ele já está ali, presente na estação. Vem antes do sol porque o trabalho nasce antes da cidade acordar. Aliás, o trem leva pessoas que vão tornar possível o despertar de outros tantos para mais um dia. São padeiros, cozinheiros, pedreiros, diaristas, e até mesmo motoristas. Gente que faz com que as pessoas, ao acordarem, encontrem tudo funcionando. Mas a vida só funciona lá porque o trem funcionou aqui, antes do sol nascer.

O trem leva e traz sonhos. Na alma de cada passageiro habita um sonho, que no embalo do trem, retoma seu diálogo com o dono. É como se o sonho só aparecesse nesta hora, na hora da viagem. É quando a correria habita apenas sobre os trilhos por que passam o trem. Pois seus passageiros parados, encostados uns nos outros apenas dialogam com seus sonhos. Uns sonham mesmo acordados, outros dormindo profundamente. São sonhos de vencer, de conseguir o emprego, de suportar mais um dia, de ter uma boa notícia do médico, de voltar pra terra natal, de não tomar mais o trem, de compartilhar estes sonhos com alguém, enfim. São tantos sonhos, que por vezes seus donos os expulsam, ao serem interrompidos pela gritaria de mais uma parada na estação seguinte. Ordena-se até que eles desçam (os sonhos) os deixem em paz. Mas não adianta, eles moram dentro da alma, e quando menos se espera eles saltam do meio do mato do lado de fora do trem e voltam a dialogar com o dono.

O trem leva e traz o silêncio e a solidão. Não o silêncio do ambiente, porque este é sonoro e por vezes até sinfônico. Mas o silêncio de cada um. Silêncios e segredos que são compartilhados apenas com os vidros, janelas, portas, paisagens ou folhagens. Solidão não do ambiente porque este é exaustivamente habitado, lotado. Mas solidão que é sinônimo de maturidade, segundo Donald Winnicot, é a capacidade que a pessoa tem de ficar só consigo mesma, ainda que dentro de um vagão no meio de uma multidão. Solidão que faz a gente conversar conosco mesmos e tratar de coisas sérias e profundas. Faz a gente chegar ao lugar de grandes e importantes decisões, inclusive aquelas que transformam pra sempre a vida.

O trem leva e traz esperança. Porque as pessoas que sonham e dialogam consigo mesmas no silêncio de sua alma estão, a cada viagem, renovando a vida e enchendo o mundo de esperança.

Salmos 4:4: Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o coração e sossegai.
Com carinho,
Pr. Marcelo em 08/01/2008 às 18h15
Neste ano a IP Esperança comemora 50 anos de organização no bairro de Perus. localizada na rua da Estação de Trem, é a primeira Igreja Evangélica do Bairro.

2 comentários:

Marcelo Coelho Almeida disse...

Caro Marcelo: Escrevendo sobre o trem da esperança, as minha primeiras lembranças me remetem aos tempos de faculdade no trecho Perus/Santo André. Quanta esperança carregava neste percurso e quanta coisa boa aconteceu naqueles tempos! Parabéns pelo blog!
Flávio

Marcelo Coelho Almeida disse...

Caro Marcelo: Escrevendo sobre o trem da esperança, as minha primeiras lembranças me remetem aos tempos de faculdade no trecho Perus/Santo André. Quanta esperança carregava neste percurso e quanta coisa boa aconteceu naqueles tempos! Parabéns pelo blog!